sábado, 1 de junho de 2013

Suicídio de Artistas - Crônica

Chaplin,em sua biografia, conta dos artistas que começaram a se suicidar por volta de 1912. Artistas que ficaram desesperados quando perceberam que o surgimento do cinema fez nascer um conceito de mito, de fama, muito diferente do que estavam acostumados! Alguns se jogaram da ponte do Tamisa, outros apontaram revólveres para a própria cabeça, num sinal de protesto e, ao mesmo tempo declarando sua incapacidade de adaptação às mudanças rápidas que ocorrem no dia a dia ocidental.
Tenho ouvido discursos semelhantes de vários colegas, alguns estão considerando a possibilidade do suicídio, por se julgarem inúteis e mal encaixados num mundo globalizado e rápido como o de nossos dias, mas há também aqueles que se sentem sozinhos, deprimidos, sem trabalho ou interlocução para lidar com o contexto conturbado da vida política e do cotidiano do país!
Há aqueles que estão migrando para outras profissões e passaram a acreditar que realmente não é possível viver de arte, principalmente nos tempos atuais, onde o conceito de mito e celebridade passou a exigir cada vez mais, um apelo imediato e de total empatia com o público numa velocidade que não combina com um processo mais aprofundado de elaboração. A depressão, o medo, a angústia e a solidão tem sido uma constante na nossa profissão, sobretudo um sentimento de inutilidade e um certo vazio causado pela profunda falta de esperança. Há o medo de chegar à velhice sem qualquer cobertura do estado e/ou uma garantia de descanso depois de uma vida de trabalho. E ainda, o pior de todos os medos que ronda um artista. O esquecimento!
E tem aqueles que sentem medo de perder seus companheiros ou companheiras por não conseguirem uma forma digna de prover o sustento e dar garantias para sua família. Vivendo como se fossem mendigos hi-tec, sem dinheiro para viver mas usufruindo de uma vida de aparências, impossível de esconder, no grande big brother que se tornou nosso viver contemporâneo.
Na minha Percepção, esses fantasmas sempre existiram na vida dos artistas. Se hoje vivemos uma pressão econômica maior, em tempos outros, era bem difícil lidar com o TABU da profissão. Atualmente o artista é mais aceito pela sociedade de consumo; muitos criaram corporações e vivem de seu trabalho, outros conseguiram seu lugar ao sol trabalhando para grandes emissoras de televisão, ostentando um ar de sucesso e que muitas vezes, tem que ceder em suas crenças filosóficas para se tornar mero “vendedor de luxo” de produtos para o consumo de uma sociedade insaciável. E é diante desse e de outros quadros, que muitos se fragilizam conhecendo os limites da depressão e se vendo oprimidos em sua condição.
Quando recebo a notícia de que um colega de profissão deu cabo da própria existência, fico no vácuo de mim mesmo, num vazio muito grande, me perguntando o que o levou a cometer este ato para consigo mesmo.  As respostas eu não tenho, ninguém tem. Alguns podem nos convencer sobre abraçar uma fé cristã, encontrar um trabalho rentável, buscar um amor que o faça querer viver. Mas,sinceramente, não há uma resposta linear, senão o viver e o ser de cada um e, como diria Caetano, "cada um sabe a dor e delícia de ser o que é".
Aos amigos que fizeram essa escolha dramática, desejo-lhes paz, que encontrem algo além do que não encontraram aqui e àqueles que, por ventura, pensem num desfecho assim, para sua vida, desejo muita reflexão, um olhar alargado sobre as múltiplas situações da vida e uma reação forte no sentido de buscar realizar seus sonhos da forma possível, sem expectativas que gerem frustrações e desgastes para a alma! Como já disse minha mãe, tantas vezes, “é necessário sempre dar o passo do tamanho da perna e só depois que estiver acostumado, aí então, se deve saltar, com cuidado, para não cair no abismo". Viver e morrer é uma cosia só, estamos todos neste caminho e não adianta disfarces. Fico solidário aos que partiram, entendo seus motivos, comungo de sua dor e nunca desistirei de ama-los. Sempre penso em vocês...
                    
JidduSaldanha
03/06/2011

4 comentários:

  1. ai Jiddu!!! Fiquei comovida com este seu texto

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    1. Esse texto foi dilacerante pra mim, mas tive que escrevê-lo, tem coisa que dói muito neh?

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  2. Ah, seu escrevinhador! Maravilha!

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  3. Obrigado, pessoa tão querida, por investir teu tempo lendo algo que faço com tanto amor. Seja bem vinda sempre ao Shampu de Arte.

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